A distância não afeta
a fome de ser quem sou
um vulto que se infecta
com a raiva que negou
o vírus que nos detecta
o bobo que nos julgou
sem conhecer o profeta
que nada profetizou.
Despertar a dor da ausência
com a fuga de uma pureza
é vestir a cor da violência
co´a morte velha da beleza.
As farsas do cotidiano
são viveiros de cultura,
nacos do mito ufano
em versos de tortura
e réus de corpo insano
que viajam na tontura
de não verterem o dano
às facas do véu humano.
Ouvir as forças do ocaso
na virgindade da nascente
é inventar o mortal prazo
à água de uma semente.
E nada será urgente
no berço da nossa idade
nem a coragem carente
nem a fluência da verdade
roendo o caruncho vidente
que se alarga à vontade
de cobrir o nosso poente
co´o caos da Humanidade
Assinado por Renato Cresppo
sexta-feira, 3 de abril de 2020
domingo, 8 de março de 2020
Nas teias de uma alucinação delírica - II
Enclausurado, preso, exilado...
Sou um calafrio de dias póstumos. Os meus pensamentos são riscos diários, soprando as metáforas do olhar que transcendem o limiar do absurdo. Cada passo que dou sob os concertos humanos da cidade, revelam a esfinge deste corpo que partilho com as sombras da idade. Ser-se jovem para não se ser velho é um prazo que se valida ao custo de vida. Sob os mantos do silêncio componho sonatas de Outono que o Verão derrete para não decifrar esta ousadia de escrever desafios à docilidade do tempo que nos costura com os pregões da conformidade inapelável. Por muitas perguntas que crave, neste exílio permanente, à suavidade embrionária dos sorrisos complacentes, não lhes ouço os sussurros lancinantes, nem a musicalidade das lágrimas blasfemas. Os dias são dias, as noites são noites, e nada se ouve no lento deslizar das nuvens que são promessas de vãs fertilidades. Tudo é efêmero. E efêmero serei eu, nas águas ligeiras de um rio sem fronteiras. A Morte é um cancioneiro de pássaros, perdidos na combustão do tempo. Assim, eu voarei.
Assinado por Renato Cresppo
quinta-feira, 19 de dezembro de 2019
Nós, pormenores da vida - I
Caminhamos jovens, velhos,
lamentos de sutilezas
pra apagarmos às tristezas
os cacos dos vis espelhos,
pedaços de carne viva,
segredos de alma cativa
que a Morte nos arquiva
pra sermos memórias fúteis
em lavas de tempo, inúteis
por sabermos que a vida
é uma visão esquecida,
boca trêmula que grita
contra a dor que nos agita
entre os dedos de uma fera
que devora à noite antiga
a ilusão de uma espera
com a raiva da cantiga
que todo o vento mastiga
para em sonhos de verdade
cuspir o fogo da idade
e sorrir à mão amiga
que afaga a espiga
e nos aquece a vontade
de sermos tudo o que somos
no sumo claro dos gomos
depomos.
Assinado por Renato Cresppo.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
Nos pormenores da vida - I
Estava sentado a um canto de um pequeno café, junto do mar. Já eram minutos passados das nove horas da noite. Não me apetecia jantar. O coração batia-me com a força das marés vivas, socando com violência a pequena praia que semeava o café. Os meus olhos que atravessavam as janelas forradas de pó, fuzilavam o horizonte como se fossem um Goya transtornado. Desenhei um rosto no vidro da janela. Um rosto sem olhos, sem boca, um rosto lixado pelo esterco e pelas garras afiadas do meu cérebro, afogueadas que estavam pelas pulsões do seu lixo.
Uma atendente magricela abeirou-se em minha mesa e perguntou-me, delicadamente, se desejava alguma coisa. Investiguei a minha fome que, rapidamente, descobri ser nenhuma, mas, mesmo assim, pedi um pequeno prato de frios e um copo do vinho tinto da casa. Momentaneamente, apeteceu-me apanhar uma bebedeira e, depois, estender-me na areia molhada, untando-me com a vingança de uma razão apodrecida.
A magricela trouxe-me os frios e, eu, senti-me, subitamente, enjoado. O salame era hediondo, o pastrame, insosso, e as azeitonas até pareciam boas. Cretinice, a minha, por me ter lembrado de comer naquela espelunca. Sobrou o vinho que me estancou os palavrões murmurados entredentes. Afundei-me, nela, sem me preocupar com os resultados. Bebi um café e paguei a conta. Uma fortuna por uma provocação daquelas. Saí do café e fui, de imediato, lambido por uma língua de ar frio. Tinha urgência em acalmar as baforadas violentas que boiavam no meu corpo. Que se lixasse o frio, e, sem pensar em mais nada, despi-me e mergulhei nas águas geladas do mar. O corpo vibrou como se fosse um caniço ao vento. Nadei como uma enguia e, instantaneamente, a depressão que me afogava o cérebro diluiu-se como a espuma do mar. Aproveitei o impulso de uma onda maior e deixei que o corpo rebolasse pela areia, como se a minha nudez se estendesse sobre um colchão de plumas. Levantei-me, abastecendo o corpo com os suores revoltados de uma vida sem afinações. Vesti-me, subi a pequena escada que ligava a praia à rua e seus inúmeros pontos de autobus. A noite era um calafrio nos olhos das minhas ventas e o vento empurrava-me para Sul, quando devia seguir para Norte. Que destino sem norte, pensei eu, rasgando a noite com os faróis de um tempo que nada me dizia. Que destino em que só a morte, cogitei eu, rasgando os dias com os faróis de um tempo que tudo se despia – e despedia.
Escrito por Renato Cresppo na madruga do dia 18 de Dezembro de 2019 (02:50:12)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2019
Nas teias de uma alucinação delírica - I
Um voo vertiginoso. Abraçou-se às limas do tempo e, tal como um trapezista sem rede, protegeu os malabarismos de uma execução arriscada e entregou-se às mãos do depravado que era quando, na aldeia em que vivia, seguia os carreiros das formigas carregando, com elas, a reserva alimentícia do inverno castigador. Entretinha-se, com laivos de cinismo, a depositar, nos seus caminhos, obstáculos que lhes dificultavam os percursos até às bocas dos seus refúgios. Adorava asfixiar-lhes as bocas e dava pulos de satisfação ao vê-las ensandecidas. Se lhe apetecia, fisgava uma e colocava-a sobre a sua palma da mão. Deixava-a correr pelo seu braço e, em um acesso de raiva incontida, dava-lhe uma dentada e tomava-lhe o gosto. Não gostava. Cuspi-a e volvia de regresso a casa e ao regaço de seus pais. Que pais! Amavam-se no campo, em casa, a qualquer hora do dia e da noite, sem que nunca lhe tivessem dado a companhia de um irmão. E para que desejara ter um irmão se a cor das borboletas eram alvo especial dos seus olhos e da coleção que conservara, às escondidas, em um esconderijo, no conforto do palheiro. Ah! como delirava espetar-lhes um alfinete no corpo sensível e vê-las debaterem-se pela liberdade perdida. Que belo arco-íris ele colecionara! A casa era rodeada por uma bela chácara onde havia de tudo o que a imaginação esculpia. Gostava de caminhar até ao riacho onde tomava gostosos banhos de água gelada. O frio toldava-lhe o discernimento. Vingava-se, atirando pedras aos peixes que por ali cirandavam, quando não apanhava um e o devorava como se fosse triturado pela fome de um lobo esfomeado. Se o dia o torturasse com a preguiça, dormia no palheiro. Acordava à noite, saía de casa por entre os gemidos afogueados dos pais, ia ouvir as rãs e se o temporal lhe abanasse as idéias encostava-se a uma rocha e delirava com o bailado dos relâmpagos e o ritmo acelerado dos trovões. Adormecia quando o sol despontava e sonhava com as trepadeiras do medo. Acordava aflito e desenhava na terra a figura dos pais.
Assinado por Renato Cresppo
terça-feira, 10 de dezembro de 2019
Oblívio no engano V - Cancioneiro Póstumo
Sou um calafrio de dias póstumos. Os meus pensamentos são riscos diários, soprando as metáforas do olhar que transcendem o limiar do absurdo. Cada passo que dou sob os concertos humanos da cidade, revelam a esfinge deste corpo que partilho com as sombras da idade. Ser-se jovem para não se ser velho é um prazo que se valida ao custo de vida. Sob os mantos do silêncio componho sonatas de Outono que o Verão derrete para não decifrar esta ousadia de escrever desafios à docilidade do tempo que nos costura com os pregões da conformidade inapelável. Por muitas perguntas que crave, neste exílio permanente, à suavidade embrionária dos sorrisos complacentes, não lhes ouço os sussurros lancinantes, nem a musicalidade das lágrimas blasfemas. Os dias são dias, as noites são noites, e nada se ouve no lento deslizar das nuvens que são promessas de vãs fertilidades. Tudo é efêmero. E efêmero serei eu, nas águas ligeiras de um rio sem fronteiras. A Morte é um cancioneiro de pássaros, perdidos na combustão do tempo. Assim, eu voarei.
Assinado por Renato Cresppo
Assinado por Renato Cresppo
sábado, 8 de dezembro de 2018
Sombras
Que sombras serão estas
Que em fomes de medo
São as fugas desertas,
As verdades falidas
Dos escombros humanos
Que entre a solidão
E a foz noturna
De suas peles sedentas
Buscam no corpo amante
O amor derramado
Pela poesia do canto?
São o coro e o manto
Que apelam, argutos,
À esperança da morte,
Pelos dentes da vida
Que corroem essa sede
Que o eterno mata
E deslumbra, co´o fogo,
O rufar dos encantos,
A poesia da manhã,
A flauta dos segredos
Que em notas de frescura
São as asas fogosas
Da nossa liberdade.
Assinado por Renato Cresppo
Que em fomes de medo
São as fugas desertas,
As verdades falidas
Dos escombros humanos
Que entre a solidão
E a foz noturna
De suas peles sedentas
Buscam no corpo amante
O amor derramado
Pela poesia do canto?
São o coro e o manto
Que apelam, argutos,
À esperança da morte,
Pelos dentes da vida
Que corroem essa sede
Que o eterno mata
E deslumbra, co´o fogo,
O rufar dos encantos,
A poesia da manhã,
A flauta dos segredos
Que em notas de frescura
São as asas fogosas
Da nossa liberdade.
Assinado por Renato Cresppo
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